No dia 30 de outubro, o Ideias Verdes publicou um texto sobre a diferença entre ovos convencionais e orgânicos, destacando como ponto principal a forma como as galinhas poedeiras são criadas para produzir os ovos. A publicação contou com a colaboração da assessoria de imprensa da Humane Society International (HSI), organização mundial de proteção animal, com envio de pesquisas e duas entrevistas, uma delas com Helenice Mazzuco, Ph.D. em Nutrição e Fisiologia e pesquisadora da Embrapa Suínos e Aves.
Por considerar que o posicionamento da Embrapa não foi apresentado na matéria, a pesquisadora entrou em contato com o blog e levantou alguns pontos para o debate do tema:
- É falso o conceito de que os ovos convencionais perdem características nutritivas; a alimentação das aves alojadas em gaiolas é extremamente balanceada e, nutricionalmente, ovos oriundos desse tipo de criação não mostram qualquer diferença em sua composição nutritiva e, consequentemente, à saúde e nutrição do consumidor. Existe um limite fisiológico em que há deposição dos nutrientes na clara e gema. Independentemente do tipo de sistema de criação, a ave é a mesma (espécie Gallus gallus).
- Pesquisas científicas recentes indicam que não há diferença no conteúdo em macro-microminerais das porções comestíveis (gema e clara) comparando-se ovos convencionais e ovos orgânicos (Food Chemistry, 2011- doi:10.1016 j.food.chem:2011.11.084). Do mesmo modo, o potencial perigo de contaminação dos ovos por substâncias indesejáveis, que apresentem perigo químico e/ou biológico, é maior em sistemas orgânicos/alternativos de produção de ovos, conforme indicam os autores (Poultry Science, 2010-doi:10.3382/ps2010-00794).
- A cor da gema pode ser alterada conforme a alimentação das aves proporcione pigmentantes carotenóides. No mercado existem pigmentantes naturais, como extratos da flor Marigold, ou alfafa, entre outros, utilizados na produção de ovos convencionais, com gema apresentando coloração desejável ao consumidor, dentro de uma escala colorimétrica, e que não difere dos ovos “orgânicos”.
Leia na íntegra a entrevista concedida por email pela pesquisadora Helenice Mazzuco:
1. Qual a composição da ração das poedeiras: milho, soja, sorgo, uma mistura?
Sim, a ração das poedeiras comerciais são compostas por ingredientes “clássicos” como milho-farelo de soja, fontes de Cálcio (Ca) e Fósforo (P), como o calcário e fosfatos e fonte de micronutrientes (vitaminas e minerais) e ofertada de forma balanceada ou seja, atendendo ao estágio produtivo da ave, idade e exigência nutricional da linhagem que se encontra alojada na granja de produção de ovos.
2. A soja e o milho usados são transgênicos? É possível rastrear o tipo de grão – se ele é transgênico ou não em algum tipo de ovo (caipira e orgânico, por exemplo)?
Sim, grande parte da produção nacional (e mundial) de milho e farelo de soja é transgênica. Conforme indica o MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), no Brasil o plantio de organismos geneticamente modificados precisa ser aprovado pelas autoridades brasileiras. Atualmente estão autorizados eventos de modificação genética para as culturas de soja, milho e algodão. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) presta apoio técnico e de assessoramento ao Governo Federal na formulação, atualização e implementação da Política Nacional de Biossegurança (PNB) de Organismos Geneticamente Modificados (OGM) e seus derivados, bem como no estabelecimento de normas técnicas de segurança e de pareceres técnicos referentes à autorização para atividades que envolvam pesquisa e uso comercial de OGM e seus derivados, com base na avaliação de seu risco zoofitossanitário, à saúde humana e ao meio ambiente. Existem sim técnicas convencionais e avançadas desenvolvidas para detectar a presença de OGM (Organismos Geneticamente Modificados) como por exemplo, método ELISA, PCR (plymerasechainreaction) e microarray, (chips de DNA ou biossensores).
3. Os restos de animais abatidos – como farinha de osso, pena, sangue, etc – são misturados na ração dada a animais saudáveis ou isso é proibido? Essas farinhas são mesmo de outras aves, ou de ruminantes e suínos? Isso é preocupante dado a ocorrência de problemas como a doença da vaca louca?
Produtos de origem animal (incluindo resíduos não comestíveis do abate de bovinos, suínos, aves e peixes) para serem utilizados na alimentação de poedeiras devem ser oriundos de fornecedores idôneos, isto é, que seguem boas práticas de fabricação durante o processamento dos produtos e os entregam dentro das especificações de qualidade e segurança sanitária. Igualmente, o MAPA regulamenta a fabricação e comercialização desses produtos para a alimentação animal. O Regulamento técnico da inspeção higiênico-sanitária e tecnológica do processamento de resíduos de animais (Instrução Normativa 34/ 2008) é um dos marcos regulatório que devem ser seguidos por estabelecimentos produtores de farinhas e produtos gordurosos destinados à alimentação animal. Não há registros de casos de “vaca-louca” em nosso país e a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) mantém o status de risco insignificante (no Brasil) para Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB) – mais conhecida como “vaca louca”.
4. Que tipo de medicamento é misturado na ração ou água das poedeiras de forma preventiva? Antibióticos? Aceleradores de crescimento? São utilizados para prevenir que tipos de doenças? Já se documentou algum tipo de problemas com resíduos dessas substâncias químicas nos ovos? Isso se difere entre a produção convencional, caipira e orgânica?
Não são utilizados medicamentos, antibióticos ou “aceleradores de crescimento” na ração ou na água de consumo das poedeiras comerciais. Existem aditivos antimicrobianos, anticoccidianos e agonistas com uso autorizado na alimentação animal e suas indicações e restrições e períodos de retirada ocorrem conforme regulamentação e fiscalização do MAPA. Resultados do acompanhamento dos Programas de Controle de Resíduos e Contaminantes dentro do Plano Nacional de Resíduos e Contaminantes – PNCRC – em Ovos são divulgados periodicamente de modo a informar que ações de investigação a campo foram adotadas pelo MAPA para detectar as possíveis causas que ocasionaram a detecção de resíduos/contaminantes acima dos limites máximos de tolerância permitidos pela legislação e igualmente recomendar aos setores produtivos, com base nas violações detectadas pelo programa, que sejam adotadas medidas de educação sanitária a campo para atendimento às boas práticas de utilização de produtos de uso veterinário, a fim de mitigar o risco da ocorrência de resíduos/contaminantes em produtos de origem animal.
Na prevenção de doenças são utilizadas vacinas nos plantéis atendendo ao Programa Nacional de Sanidade Avícola (PNSA) do MAPA. A vacinação contra as doenças aviárias são realizadas somente com vacinas registradas e aprovadas igualmente pelo MAPA, de acordo com a legislação em vigor, seja como medida de ordem profilática ou de controle de doença.
A diferença nos sistemas de produção orgânica e convencional quanto ao uso de medicamentos são dadas pelas normativas oficiais que incidem sobre um tipo ou outro de produção; no caso da produção orgânica há restrições no uso de medicamentos para o tratamento de doenças além do período de carência para uso dos mesmos, conforme indica a Instrução Normativa do MAPA 46/2011.
Imagem: SXC.HU
Fonte: Ideias Verdes














